Sobre dislexia…

Sobre dislexia…. (Fonte: Dialectos Psicológicos)

A dislexia é uma condição amplamente reconhecida no meio educacional nacional e internacional, com sintomas bem definidos, com vasto embasamento teórico-científico e que segundo recentes estimativas afeta de 4 a 8% da população mundial (Brunswick et al.,2010). . Estudos funcionais relacionam o reconhecimento e a decodificação das palavras às bases neurobiológicas, representadas pela ativação da região temporal basal e bilateral. A integração das informações e o processo fonológico resultam na ativação do giro angular e dos giros temporais médio e superior esquerdos. Fletcher (2009) aponta que tanto a produção, quanto a compreensão dependem da ativação das regiões do córtex frontal.

Segundo Lyon et al.(2003) a Dislexia é um transtorno específico de aprendizagem da leitura comprovadamente de origem neurobiológica caracterizada pela dificuldade na habilidade de decodificação, soletração, fluência e interpretação. (Blomert et al., 2004) ressalta que essas dificuldades são consequências do déficit no componente fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades cognitivas. A grande maioria dos autores aponta a teoria do déficit fonológico como causa da dislexia, relevando as dificuldades relacionadas ao processamento fonológico, como dificuldades em tarefas que envolvem repetição de palavras e não palavras, em reter informações verbais na memória de trabalho, na nomeação rápida e em tarefas metalinguísticas que envolvem a manipulação de fonemas.

Sabe-se que a dislexia ocorre em todos os idiomas, sendo que algumas facilitam mais a sua expressão do que outras de acordo com as características linguísticas e ortográficas. Inúmeros estudos demonstram as bases neurobiológicas universais da dislexia, consistem no processamento fonológico e que a diferença entre os idiomas deve-se à utilização de diferentes estruturas ortográficas, e não ao processamento fonológico (Paulesu et al., 2001).

Existem três tipos básicos de dislexia (Alves et al., 2011):

  • Dislexia Disfonética ou Fonológica: existe dificuldade na leitura oral de palavras pouco conhecidas, onde a dificuldade encontra-se na conversão de letra em som. Pode estar associada a uma disfunção no lobo temporal.
  • Dislexia Diseidética: existe dificuldade na leitura caracterizada por um problema de ordem visual, ou seja, o processo visual é deficiente. Está relacionada a problemas no lobo occipital.
  • Dislexia Mista: os leitores apresentam problemas dos dois subtipos disfonéticos e diseidéticos, sendo associadas a disfunções nos lobos pré-frontal, frontal, occipital e temporal.

Fisiopatologicamente, a dislexia está relacionada a malformações corticais e subcorticais, anomalias de migração celular que afetam em particular a região perisilviana do hemisfério esquerdo.

Atualmente o conceito mais aceito de dislexia é de um transtorno específico da aquisição e do desenvolvimento da aprendizagem da leitura, caracterizado por um rendimento em leitura inferior ao esperado para a idade e que não se caracteriza como o resultado direto do comprometimento da inteligência geral, lesões neurológicas, problemas visuais ou auditivos, distúrbios emocionais ou escolarização inadequada.

A dislexia é um transtorno específico e persistente da leitura e da escrita, de origem neurofuncional, caracterizado por um inesperado e substancial baixo desempenho da capacidade de ler e escrever, apesar da adequada instrução formal recebida, da normalidade do nível intelectual, e da ausência de déficits sensoriais. O disléxico responde lentamente às intervenções terapêuticas e educacionais específicas. Porém, somente com estas intervenções adequadas podem melhorar seu desempenho em leitura e escrita. O prognóstico depende ainda de diversos fatores facilitadores como a precocidade do diagnóstico, o ambiente familiar e escolar.

(Relatório Técnico do Comitê de Especialistas. IDA, 2008. Definição da Dislexia)

É importante destacar que tal transtorno deve ser diferenciado das variações normais na realização acadêmica e das dificuldades escolares devido à falta de oportunidade, ao ensino inadequado ou a fatores culturais, ou seja, a definição de dislexia inclui duas pressuposições fundamentais: integridade geral e uma deficiência de aprendizagem da leitura e/ou da escrita. Fatores socioeconômicos, ambientais e familiares podem influenciar o desenvolvimento das habilidades de leitura, mas não podem se configurar como causa da dislexia.

Referências:

ALVES, Luciana Mendonça; MOUSINHO, Renata; CAPELLINI, Simone. Dislexia. Novos temas, novas perspectivas. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011.

Associação Brasileira de Dislexia. Definição de dislexia elaborada em 2000 pela International Dyslexia Association. Disponível em: http://www.dislexia.org.br/ Acessado em: 07-06-2015 00:07

BAKKER, Dirk. O Cérebro e a Dislexia. O Choque Linguístico–, p. 14, 2002.

BLOMERT, Leo; MITTERER, Holger; PAFFEN, Christiaan. In Search of the Auditory, Phonetic, and/or Phonological Problems in Dyslexia Context Effects in Speech Perception. Journal of Speech, Language, and Hearing Research, v. 47, n. 5, p. 1030-1047, 2004.

FAWCETT, Angela J.; NICOLSON, Roderick I. Performance of dyslexic children on cerebellar and cognitive tests. Journal of motor behavior, v. 31, n. 1, p. 68-78, 1999.

FLETCHER, Jack M. Dyslexia: The evolution of a scientific concept. Journal of the International Neuropsychological Society, v. 15, n. 4, p. 501, 2009.

LYON, G. Reid; SHAYWITZ, Sally E.; SHAYWITZ, Bennett A. A definition of dyslexia. Annals of dyslexia, v. 53, n. 1, p. 1-14, 2003.

PAULESU, Eraldo et al. Dyslexia: cultural diversity and biological unity.Science, v. 291, n. 5511, p. 2165-2167, 2001.

Prova rápida para identificar crianças que poderão ter dificuldades na aprendizagem da leitura

O dia 14 de Julho foi publicado um artigo “Auditory Processing in Noise: A Preschool Biomarker for Literacy” (White-Schwoch, Carr, Thompson, Anderson, Nicol, Bradlow, Zecher, & Krauss) que descobriram um exame biológico rápido que pode identificar às crianças que poderão ter problemas de alfabetização ou dificuldades de aprendizagem muito antes de elas começarem a ler.
Segundo esta investigação da Universidade Northwestern, em Evanston, Illinois, Estados Unidos, as crianças cujos cérebros processam ineficientemente a fala num contexto de ruído, são mais propensos que as outras a ter problemas com a leitura e o desenvolvimento da linguagem quando chegam a idade escolar. Assim, o exame centra-se na capacidade da crianças para decifrar a fala – especificamente consoantes – num ambiente caótico ruidoso.
Acesso ao artigo completo aqui.